sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Carta para meu irmão Sérgio

Querido irmão,
por inúmeras vezes quis abrir o meu coração com você e falar sobre a minha admiração por ti. Talvez por medo ou por falta de oportunidade na correria do dia - a - dia, isso não tenha se tornado possível. Confesso que por várias vezes tentei, mas o nó na garganta não me permitiu;

Mas logo eu, que falo feito uma tagarela não conseguir falar? Por incrível que pareça, eu também fico sem palavras as vezes.

É tão mais fácil falar, aconselhar ou até mesmo resolver os problemas de pessoas que não conhecemos. O peso da responsabilidade é menor. Se aconselhamos errado, não importa tanto, quando não sabemos se aquela pessoa voltará a cruzar nossos caminhos...

Mas falar de sentimentos com pessoas que conhecemos e amamos é tão difícil... Não deve ser, mais é! Pois quem nos conhece nos desarma, nos deixa a vontade e é perigoso ser desarmado assim, dessa maneira. Há anos não me permitir ser desarmada dessa maneira. Sempre ali firme, forte, com coragem e garra. Lagrimejar talvez, mas me desarmar não!

Para muito a Dely é alguém que não se abala fácil. Ela agüenta! É inabalável. Acho que ouvi isso tantas vezes que acabei acreditando nisso. Mas então...

Então é quarta-feira, dia 20 de Outubro de 2010.
Segunda aula.
Aula de APL - arranjos produtivos locais - com o professor Sócrates. Em um momento acadêmico minha armadura brilhante e resistente se espatifou no chão.

Naquele momento descobri que ainda era humana, que tinha sentimentos como qualquer outra pessoa. Descobri que minha armadura brilhante, tão bem cuidada, não mais cabia em mim...

O professor começou sua aula... Falaríamos de valores...
Veio o primeiro colega que ao falar de seus sentimentos de saudade abriu uma brecha dentro de mim. Depois veio o segundo que falou de lembranças, o terceiro que falou de gratidão e assim cada um ia falando. As lágrimas molhavam os meus olhos, mais ainda estavam tímidas para mostrarem sua face.

Então... tudo mudou...
Alguém que conheço bem se levantou ao poucos se aproximou do professor, com um caderno na mão e se colocou a falar. Ouvi uma voz que me soava familiar, que me acalmava o coração, me passava segurança. Era você, meu irmão que iria falar...

Falaria de seus valores... Agora eu saberia dos seus valores. Mais cedo lhe perguntei quais eram e recebi como resposta que era "uma caneta". Estava curiosa para saber o que a tal caneta representava... E ao iniciar seus texto escuto uma frase que falava de uma irmãzinha e como num estalo me fez voltar no tempo.

A cada palavra sua, surgiam em minha mente cenas de nossa infância. Elas eram tão nítidas como o meu reflexo no espelho antes de sair de casa.  Lembrei das brincadeiras, da correria que fazíamos dentro de casa; dos piqueniques no jardim; dos banhos de praia, ou mesmo de piscina, ou ainda de mangueira ao banharmos o Trovão; das partidas de futebol, onde eu mais levava gol do que fazia; das noites de Natal, que íamos dormir esperando encontrar o Papai Noel no ato da entrega dos presentes; ou de quando eu tinha medo do escuro e corria para dormir contigo, segurando tua mão até adormecer, me sentia tão segura ali.

Lembrei de quando eu era pequena e que ficava chorando por que você tinha me deixado em casa quando ia pro colégio. Chorava por que queria ir junto com você. E por obra do destino, depois de vinte anos eis que estamos estudando juntos na faculdade (juntos mesmo, mesma sala, mesma turma).

As lágrimas já não mais me obedeciam. Pareciam crianças rebeldes ou então que eu tinha uma represa dentro de mim e que naquele momento tinha acabado de estourar e as lágrimas eram  os efeitos disso tudo.

Tantas pessoas ali ouvindo aquelas palavras. Muitas me olhavam com carinho, sabiam que o texto era para mim. Outras tantas te olhavam com admiração e empolgadas com a historia que ali era revelada. Ainda tinham aquelas que choravam de emoção, mesmo sem entender bem o que era dito, ou ainda sem saber de verdade o tão profundo era aquele texto.

Não eram só suas lembranças...
Era bem mais que isso...
Era a historia de dois irmãos. Dois irmão que se complementavam, que se superavam a cada dia que passava, que tinham vencido a dor que teve em seus caminhos e que juntos cresceram. Era a historia de duas almas que Deus uniu, que pôs no caminho uma da outra e que sem estarem juntas nada seriam.

Para os ouvintes, aquele texto era apenas uma bela historia.
Para mim...
Nossa vida!!!

Passamos por tantas coisas juntos, não é mesmo? Mas as superamos sempre. Não sei se da forma certa ou errada, mas se os fins justificam os meios, eis ai o resultado. Caímos, levantamos, reconstruímos e hoje ainda construindo nosso futuro caminhando juntos.

Ao terminar a aula, em abraços de pessoas que muitas vezes nem si quer troquei palavras de boa noite durante o semestre inteiro, ouvi frases que diziam: "parabéns, vocês são exemplos de superação", "me apaixonei pela historia de vocês dois". Ou ainda de pessoas que me conheciam desde o primeiro semestre da faculdade, dizendo: "agora te admiro ainda mais", "vocês são apaixonantes".

Não sei se aquelas palavras são realmente validas para mim. Talvez não sejam! Mas uma em especial fiz questão de guardar dentro de mim. O seu Almir, que se falei três vezes durante o semestre inteiro foi muito, me falou em um abraço forte: "continuem assim unidos, não percam nunca esse laço de amor e de amizade, foi Deus quem fez vocês tão amigos assim".

Eu e o Sérgio no meu aniversário de 24 anos. Esse sorriso é que me dá sentido na vida.

Quando falei dentro do carro para você que os meus valores eram coisas impalpáveis, não brincava. Falava de valores que ninguém poderá tirar de dentro de mim. Que talvez nem para você,  meu irmão, que tantos momentos dividiu comigo, sejam eles tão fortes.

Falava das minhas lembranças....
Das mais profundas e singelas lembranças que tenho de minha vida. Que nada, nem ninguém poderá tirá-la de dentro de mim...

Ninguém irá tirar de mim o sorriso que juntos dávamos nem os momentos em que você se soltava e me mostrava o teu melhor lado. Ninguém vai tirar de mim a lembrança das noites em claro, sentados lá na varanda, conversando sobre os nossos problemas, nem das lágrimas que derramamos juntos, abraçados.

Ninguém vai me tirar a lembrança das noites em que a sala lá de baixo e o violão eram as únicas testemunhas do massacre que fazíamos com as musicas de nossos ídolos nem de como éramos desafinados. As brigas de travesseiros, os riso de piadas sem graça.

Ninguém vai  tirá de mim a lembrança de cada cinema e CD que ganhei nos meus aniversários de você, como num ritual de amizade e de amor. Nem as cambalhotas que te vi dá, só pra ver um sorriso nos meus lábios.

Ninguém vai tirar de mim a cara de preocupação que você ficava quando eu senti falta de ar nem o sorriso que você deu quando te falei que estudaríamos juntos e juntos montaríamos o teu sonho.

Ninguém vai tirar de mim o super - irmão que você foi todos os dias. O super - padrinho que você é (mesmo sem me deixar pedir sua benção). Nem o super - Sérgio que espantava os meus medos quando eu era pequena e que depois de grande se tornou o super - pai Sérgio.

Lembra aquele dia na ponte metálica, quando nos prometemos que nunca iríamos abandonar um ao outro? Me perdoa por ter sido tão fraca na época? Pensei milhões de vezes em quebrar essa promessa e dá um fim na minha dor. Só não fiz isso naquele período por você... Juro que nunca vou te abandonar, mesmo quando eu não mais tiver presente de corpo na tua vida. Sempre estarei com você, é só abri o seu melhor sorriso e lembrar que você teve uma "desmiolada com juízo" do seu lado, ou então da minha musiquinha da catraca eletonica do shompping (kkk - juro que não vou pôr nunca aqui, fica só entre nós) e vou tá do teu lado sorrindo. Eu juro!!!

Meu irmão, posso não falar todos os dia que te amo ou que te admiro, mas saiba que não tem um dia si quer que não me olhe no espelho e veja o reflexo de tua obra em minha vida. Sem você não seria nem a metade do que sou.
Obrigada por ter me guiado pelo caminho do bem, por ter aliviado  as minhas dores, por ter perdoado os meus erros e principalmente por nunca ter desistido de mim, mesmo quando eu mesma já tinha jogado a toalha.

Obrigada por ter sido o MEU PAI, MEU IRMÃO, MEU COMPANHEIRO DE AVENTURAS e por ter sido o meu SUPER - SÉRGIO!

Você é a luz da minha vida!
Obrigada por seu amor e sua amizade.

Com carinho,
Dely Nicolete

Um comentário:

  1. Agradeço tuas belas palavras: por desvelar seus sentimentos... Como é difícil descortinar o ser! O que é mais belo, porém, é saber que, por detrás das fantasias que todos somos obrigados a vestirmos em nosso cotidiano, o que vejo em teus olhos, minha querida irmã, corresponde às transparências de tua alma reveladas nessas palavras de carinho. Siga sendo sempre esse misto de fortaleza e fragilidade, pois isso é que nos torna humanos. Te Admiro muito.
    Ass.: Sérgio.

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